Venda de carro usado esbarra no crédito

Venda de carro usado esbarra no crédito

Bancos rejeitam mais da metade dos pedidos. Comércio ainda cresce no país, mas lojistas de Curitiba falam em retração

  • 06/05/2013, 00:14
  • FERNANDO JASPER
  • Henry Milleo/ Gazeta do Povo
  • Silvan Dal Bello, presidente da associação dos vendedores de usados: 2013 começou bem

Enquanto as lojas de carros novos celebram recor­des de vendas, o clima nas revendedoras de usados é bem menos animado. Consumidores não faltam, dizem os lojistas. O que está raro é financiamento.

Escaldados pelo calote her­dado dos tempos de crédito fácil, bancos e financeiras endureceram seus critérios e estão negando mais da metade dos pedidos de empréstimo. “De cada dez clientes que decidem pela compra, sete ou oito têm suas fichas recusadas”, conta Gilberto Miranda, sócio da Global Automóveis, de Curitiba.

Segundo o empresário, liberar um parcelamento ficou mais complicado a partir do segundo semestre do ano passado, em uma reação do sistema financeiro ao aumento da inadimplência. Hoje é difícil tirar um usado da loja sem dar uma entrada de pelo menos 20%. O prazo de pagamento não passa de 48 meses. E nenhum deslize passa despercebido na análise do histórico do cliente.

Segundo o Banco Central, os atrasos de mais de 90 dias nas prestações de veículos (novos e usados) atingiram o pico de 7,23% em junho do ano passado. Eles recuaram desde então, chegando a 6,31% em março, mas os critérios de análise continuam rígidos. O que é compreensível: no início da atual série histórica do BC, em março de 2011, o nível de calote era de apenas 3,66%.

Sobe ou desce?

Os números da Fenabrave, federação que representa o varejo automotivo, indicam que as vendas de seminovos e usados ainda crescem, mas devagar. No acumulado de janeiro até a metade de a­bril, elas aumentaram 2%. A Assovepar, representante dos lojistas do estado, fala em leve crescimento. “O mês de fevereiro, mais curto por causa do Carnaval, foi fraco, mas os outros foram bons”, diz Silvan Dal Bello, presidente da associação e dono das revendedoras Bello’s e Autogrif.

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A opinião de outros revendedores é bem diferente. A Gazeta do Povo ouviu lojistas de cinco bairros de Curitiba (Campina do Siqueira, Portão, Água Verde, São Braz e Alto da XV), e todos afirmaram que as vendas estão abaixo dos níveis de 2012. “Temos vendido uma média de dez carros por mês. No ano passado, eram 16 ou 17”, conta An­tô­nio Carlos Fernandes, dono da revendedora Fluxar. “Tenho a loja há dez anos, e este momento é o mais difícil desde a crise de 2008.”

Mudança
Mercado de novos cresceu 146% em oito anos. O de usados, só 20%

O mercado de carros novos avança bem mais rápido que o de usados desde meados da década passada. Em oito anos, o primeiro cresceu 146%. O segundo, 20%.

O descompasso reflete o aumento da renda da população, a ampliação da oferta de crédito e também os estímulos oficiais à compra de veículos novos. Desde a crise de 2008, cada soluço das montadoras foi seguido por medidas de socorro, em especial as clássicas reduções de IPI. Para completar, o juro na aquisição de um usado é mais alto – quanto mais velho, maior a taxa.

Essa combinação mudou o comportamento do consumidor, que, com entradas relativamente pequenas e longos parcelamentos, conseguiu encaixar o automóvel zero no orçamento. Em 2004, pouco mais de cinco veículos usados trocavam de mãos a cada carro novo vendido. Desde então essa relação caiu pela metade: de 2010 para cá, oscilou sempre entre 2,5 e 2,6 usados por novo.

“Vejo esse movimento como natural. Além de o poder de compra do consumidor ter aumentado, a oferta de carros novos é hoje muito maior. Mas 2,5 carros usados para cada novo vendido ainda é bastante coisa”, diz Silvan Dal Bello, dono de duas revendedoras e presidente da Assovepar.

Vantagens

O fascínio pelo carro zero deixa em segundo plano fatores que, em tese, levariam o consumidor a preferir um seminovo. “Um carro com dois anos de idade, em bom estado, custa de 30% a 40% menos que um novo”, diz Dal Bello. Em muitos casos, com o mesmo dinheiro que compraria um modelo 2013 “pelado”, o consumidor consegue levar um seminovo completo e mais potente.

Lojas fechadas, funcionários demitidos

A tática de baixar o IPI dos veículos novos tem ajudado a manter ou elevar os níveis de produção e emprego na indústria e o movimento nas concessionárias. Mas o efeito sobre o comércio de usados tem sido avassalador: derrubou as vendas e o preço dos carros e pôs em risco a sobrevivência de muitas lojas.

Na última vez que o governo reduziu o imposto, em maio de 2012, o preço dos seminovos e usados caiu cerca de 20%. Um lojista que tenha comprado um carro por R$ 27 mil na esperança de revendê-lo por R$ 30 mil viu o preço de revenda despencar para menos de R$ 24 mil em questão de dias. Se esse empresário tinha no pátio 20 carros em condições similares, levou um prejuízo de mais de R$ 60 mil.

Aventureiros

Muitas lojas fecharam as portas. Não há um número preciso, mas fontes garantem que, em Curitiba e região, centenas de revendedoras deixaram o mercado, a maioria pequenas ou pertencentes a aventureiros. Restaram cerca de mil empresas, segundo estimativa do site SóCarrão. E boa parte das sobreviventes teve de demitir para equilibrar as contas.

Acúmulo de funções

“Cheguei a ter cinco funcionários. Hoje são dois. Quem fica acumula serviço, de lavador, secretário, vendedor”, conta Luciano Marques, proprietário da revendedora Linea. Os irmãos Pedro e Paulo Picinatto, que têm uma loja no Portão, mandaram embora dois empregados e agora cuidam sozinhos do negócio.