Crédito Consignado, o fundo do poço…

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Para pagar outras dívidas brasileiro se enforca ainda mais com o Crédito Consignado em Folha, o risco é zero para o banco, mas os juros são altos e giram em torno 1,9% a.m. que dobra a dívida em 50 meses. Isso prova nossa denúncia anterior sobre o fato dos juros brasileiros não serem calculados com base no risco, mas sim com base na oferta e procura, isso é abominável.

24/06/2013, 09:20
AGÊNCIA ESTADO
Mudou a procura dos brasileiros por crédito. As pessoas têm buscado mais as linhas que oferecem dinheiro vivo, usado principalmente para pagar dívidas, do que aquelas que vinculam o financiamento à compra de um produto. E a estrela do crédito é o consignado, cuja prestação é descontada do salário do trabalhador, praticamente sem risco de calote para os bancos. O volume de aprovações do consignado cresceu 20,8% em 12 meses até abril, segundo dados do Banco Central (BC).

Também as concessões no cartão de crédito à vista, que acabam dando um fôlego extra para o orçamento das famílias até a data do pagamento da fatura, cresceram 15,4% em 12 meses até abril. Já as linhas ligadas diretamente ao consumo tiveram baixo crescimento ou até caíram no período. As concessões de crédito para a compra de veículos, por exemplo, recuaram 5,9% em 12 meses até abril.

A mudança no perfil da demanda por crédito foi provocada pelo alto endividamento das famílias, combinado com a inadimplência elevada e resistente, segundo os especialistas em crédito. Além disso, o avanço da inflação nos últimos meses corroeu o poder de compra da população, o que resultou no desempenho pífio do consumo das famílias, que cresceu só 0,1% no 1.º trimestre deste ano ante o último de 2012.

“Hoje, o ambiente é outro. As pessoas estão procurando crédito para fazer caixa, não para consumo”, afirma o economista-chefe da Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento (Acrefi), Nicola Tingas. Como houve crescimento significativo nas concessões no primeiro trimestre nas linhas de consignado e cartão à vista, o economista ressalta que esses são fortes indícios de que “as famílias estão com o caixa estrangulado e precisam de crédito para completar o orçamento”. Segundo ele, as linhas ligadas ao consumo perderam dinamismo.

Essa também é a avaliação do economista da Confederação Nacional do Comércio (CNC), Fábio Bentes. Nas contas dele, entre dezembro do ano passado e abril deste ano, a média diária de concessões do crédito consignado cresceu 46,1%, considerando as variações típicas desses meses. Em contrapartida, no mesmo período, as aprovações diárias de financiamentos para aquisição de bens e compra de veículos caíram 22,9% e 17,2%, respectivamente, no mesmo período.

O destaque foi o consignado. Segundo Bentes, em fevereiro deste ano, a fatia do saldo dos empréstimos consignados ultrapassou pela primeira vez a de veículos no crédito pessoal com recursos livres, excluindo o crédito imobiliário. Em abril, o último dado disponível, o consignado respondia por 28,6% do total emprestado ao consumidor e os veículos, por 27,2%.

“O consumidor está com menos folga no orçamento”, diz Bentes. Pesquisa da CNC mostra que 65,8% das famílias mais pobres, com renda inferior a dez salários mínimos (R$ 6.780), estavam endividadas em maio. Foi o segundo mês seguido em que o endividamento aumentou nesse estrato de renda. Em maio de 2012, esse índice era 56,9%.

Dinheiro

Bancos e financeiras confirmam a mudança de perfil da demanda por crédito. “Tem mais gente procurando crédito em dinheiro do que financiamento para a compra de produto”, diz Ramon Martinez, diretor de Risco da Cetelem, financeira do BNP Paribas.

No primeiro quadrimestre do ano, as concessões da linha de crédito pessoal da financeira cresceram 25% em relação a igual período de 2012, mais que o dobro da variação registrada na aprovação de crédito de cartões (12%), normalmente atrelada à compra de produtos. Por meio de cartões, a Cetelem financia as vendas em 30 varejistas espalhadas pelo País. “O desempenho do crédito pessoal surpreendeu”, diz Martinez.

No Itaú Unibanco, a carteira do consignado foi a que mais cresceu no primeiro trimestre no segmento de pessoa física. O saldo dessa linha de crédito aumentou 20% na comparação com dezembro e a perspectiva é fechar o ano com expansão de 50%. Rogério Calderón, diretor de Controladoria do banco, explica que uma parte do crescimento projetado para o consignado ocorre em razão da parceria fechada com o BMG em 2012. A outra parte se deve à maior procura por essa linha.

No Bradesco, o saldo da carteira de crédito consignado cresceu 22% em março deste ano na comparação com o mesmo mês do ano passado. O ritmo foi o dobro do registrado na carteira total do saldo de pessoa física (11,6%). “A população está mudando o jeito de tomar crédito e buscando taxas menores”, diz o diretor adjunto do Bradesco, Octávio de Lazardi. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Inadimplentes recorrem ao crédito consignado

O principal destino do crédito consignado é o pagamento de dívidas. Isso é o que revela uma pesquisa feita pela Cetelem, financeira do BNP Paribas, com os clientes que têm financiamento consignado. A pesquisa mostra que 17% dos entrevistados declararam que buscaram essa linha de crédito para cobrir despesas com saúde, 21%, para gastar na reforma da casa e 40%, para pagar dívidas.

Foi exatamente esse o destino de parte do empréstimo consignado de R$ 14 mil que o servidor público Marcos Antônio Freitas, de 52 anos, levantou no Banco do Brasil (BB). “Estou fazendo dívida para pagar outra dívida”, diz ele, que está inadimplente em quase R$ 7 mil. A diferença, obtida com o novo empréstimo e a quitação do antigo, será usada na reforma da casa.

No passado, Freitas comprou eletrodomésticos na Casas Bahia e fez despesas de supermercado no Carrefour, usando o cartão de crédito do banco. Os gastos somaram R$ 4 mil. Mas, sem aumento de salário, ele ficou inadimplente. Com juros e multa, a dívida quase dobrou.

O quadro mudou nos últimos meses, quando Freitas teve um reajuste de salário e conseguiu um segundo emprego de vigilante noturno. Com isso, a sua renda aumentou de R$ 1 mil para R$ 4,5 mil. “Decidi regularizar a minha situação”, diz. A primeira providência foi cancelar o cartão de crédito. Em seguida, ele decidiu pegar um crédito consignado. Pelo financiamento de R$ 14 mil, o funcionário público vai ter R$ 440 descontados do salário durante 48 meses.

Desconto

A babá Roseneide Marques, de 40 anos, também está usando o consignado para quitar outras dívidas. Quatro anos atrás, quando estava empregada na prefeitura de Pirapora do Bom Jesus (SP), ela pegou um empréstimo consignado de R$ 2,4 mil com a Caixa para reformar o telhado da casa. Pagou um ano do empréstimo que seria quitado em três, mas ficou inadimplente porque perdeu emprego, já que era contratada.

Agora, como funcionária concursada na mesma prefeitura, Roseneide decidiu buscar um novo empréstimo consignado de R$ 8,4 mil, para pagar a dívida anterior e fazer novamente um conserto na casa. “Fiz um empréstimo consignado novo para quitar um antigo, mas com desconto. Porém, não foi isso que aconteceu”, diz ela. Quando o novo empréstimo entrou na conta, o banco descontou a dívida pendente que estava em R$ 5.165, mas sem cumprir o abatimento que havia sido combinado. “Fui ao Procon porque queria um desconto. Afinal, paguei o empréstimo antigo à vista”, reclama Roseneide.

Com renda mensal de um salário mínimo, ela faz faxina e passa roupa nos fins de semana para completar o orçamento. “Não tenho cartão de crédito nem cheque. Fiz o consignado porque era um crédito mais barato”, diz a babá, decidida a descontar R$ 230 por mês do seu salário por cinco anos para quitar a nova dívida do consignado.

A percepção de que o crédito consignado é mais barato é que tem atraído muitas pessoas para essa linha de financiamento, especialmente os aposentados. Dados do BC mostram que, em 12 meses até abril, as concessões de crédito consignado para beneficiários do INSS cresceram 19,8%. Segundo Jefferson Frauches Viana, diretor do Instituto GEOC, que reúne 17 empresas de cobrança, quem mais está buscando consignado para pagamento de dívidas são os aposentados inadimplentes.

Dois fatores, diz Viana, levaram esse estrato da população a optar pelo consignado. O primeiro é que esse crédito é mais fácil do que os demais, pois já vem pré-aprovado e é descontado no valor da aposentadoria. O segundo é que, muitas vezes, os aposentados socorrem os familiares mais próximos que estão inadimplentes usando a linha de crédito consignado porque esta está mais à mão. “O aposentado tem a ilusão do crédito fácil e não tem a noção exata de quanto deve.”

CALOTE EM ALTA TORNA BANCOS MAIS CONSERVADORES

O avanço do crédito consignado em detrimento de outras linhas de financiamento reflete não só o aumento da procura do consumidor, mas também o maior interesse dos bancos em ofertar essa modalidade de crédito.
De um lado são os consumidores endividados ou inadimplentes que querem trocar uma dívida cara por outra mais barata, pois a taxa de juros do consignado é inferior à média do mercado. Em abril, a taxa média do consignado ao ano era de 24,3%, ante 136,8% do cheque especial, por exemplo, segundo dados do Banco Central.
De outro lado, os bancos, escaldados pela alta do calote e pressionados pela redução dos spreads (a diferença entre a custo de captação e do empréstimo), estão mais interessados em emprestar dinheiro nas linhas de menor risco, a fim de garantir os resultados.
Rogério Calderón, diretor de Controladoria do Itaú Unibanco, observa que, diante dos spreads menores, o seu banco e outros decidiram ampliar as operações em linhas de menor risco, como o consignado e o crédito imobiliário.
“É difícil determinar se houve um aumento de demanda das pessoas pelo consignado ou se houve uma busca do banco para ampliar a oferta dessa linha de crédito. Mas as duas coisas levaram a esse resultado: essa foi a linha de crédito que mais cresceu no primeiro trimestre no segmento de pessoa física”, afirma o executivo.
No caso de veículos, pressionado pelo aumento da inadimplência, o Itaú Unibanco ficou mais restritivo nos empréstimos: começou a exigir entrada maior e encolheu os prazos. Com isso, reduziu de 33%, no começo do ano passado, para 25%, hoje, a participação de mercado de crédito para veículos.
No Bradesco, o saldo da carteira do consignado aumentou 22% em março deste ano na comparação com o mesmo mês de 2012. O diretor adjunto do Bradesco, Octávio de Lazardi, atribui o crescimento do consignado à segurança que essa linha proporciona tanto para o banco, que oferece o empréstimo, como para o trabalhador, que levanta o financiamento com a prestação descontada diretamente do salário. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.