Dívida de cooperativa “suja” nomes de 300 produtores do Norte do Paraná

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Por causa de débito com o BRDE, agricultores têm dificuldade para comprar maquinários, implementos e financiar a nova safra
Postado em 5 de julho de 2013 por Bruna Komarchesqui, correspondente

Foto: Roberto Custódio/JL
Sede da Corol, em Rolândia: de 600 associados que assumiram uma dívida com o BRDE, 300 já tiveram os títulos protestados
Sella, associado da Corol: dívida de R$ 25 mil já virou R$ 34 mil
Cerca de 300 produtores rurais associados à Corol Cooperativa Agroindustrial de Rolândia, no Norte do estado, tiveram o nome inscrito na Serasa, empresa de proteção ao crédito. Eles assumiram uma dívida de R$ 20 milhões com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), que não foi honrada pela cooperativa.

Por enquanto, uma liminar da Justiça do Paraná suspende temporariamente os protestos, mas o banco afirma que está recorrendo da decisão e que pretende continuar executando a cobrança dos títulos. Mesmo assim, os que estão com nome sujo têm dificuldade para comprar maquinários, implementos e financiar a nova safra.

“Tentamos recuperar, negociar, mas não conseguimos. Como se trata de dinheiro público, temos a obrigação de cobrar. Eu seria processado se não o fizesse”, diz o superintendente do BRDE no Paraná, Paulo Cesar Starke Junior. Ele explica que o empréstimo concedido à Corol fazia parte de uma linha de crédito do governo federal para cooperativas, prevendo garantias por meio de Nota de Crédito Rural (NCR). Conforme o superintendente, o banco pretende continuar executando a dívida. “Os produtores tinham consciência de que as NCRs seriam dadas pela Corol ao BRDE, isso foi aprovado em assembleia.”

Seiscentos dos 6,9 mil associados da Corol assinaram, juntos, 900 NCRs, no valor de R$ 25 mil cada, assumindo a responsabilidade pelo pagamento da dívida – desses, 300 associados já tiveram os títulos protestados. No fim de maio, a diretoria que administrava a cooperativa na época de liberação do crédito foi destituída pelos associados. Em junho, uma comissão provisória, formada por seis produtores, assumiu o comando. Em 30 dias, uma auditoria deve apontar a real situação financeira, jurídica e patrimonial da Corol.

“Os sinais de que as coisas não estavam funcionando eram claros. Eu já previa isso e não assinei”, recorda o produtor de Rolândia Daniel Rosenthal, diretor-secretário da comissão provisória. Segundo ele, a maioria dos associados é de pequenos produtores. “Se forem cobrados, eles terão que vender a propriedade para quitar a dívida. Na vontade de ajudar a cooperativa num momento difícil, eles acreditaram nas garantias e assinaram”, diz.

Estima-se que a dívida atual da Corol seja de R$ 570 milhões. A crise começou em 2008 para viabilizar um projeto de expansão, que precisou ser paralisado por falta de capital de giro. Eliseu de Paula, que comandou a cooperativa por 30 anos até ser destituído, demonstrou confusão ao comentar a aplicação do recurso emprestado. “Aplicamos no giro da cooperativa. Foi para cobrir compromissos, para investimentos que estávamos fazendo na época.”

Uma nova assembleia, convocada para o dia 12, deve definir se a administração atual pode continuar dirigindo a Corol. O presidente da comissão provisória, João Menolli, aguarda os resultados da auditoria para começar a negociação com os credores.

À espera de um desfecho, cooperados veem dívida crescer

Produtor de café, laranja, milho e soja em uma propriedade entre Rolândia e Cambé, o associado da Corol Irineu Sella ficou assustado quando recebeu uma carta da Serasa em casa.

“Assinei uma NCR de R$ 25 mil e, hoje, a dívida está em R$ 34 mil. Foi protestada, a minha e de mais 300 produtores. Ficamos impedidos de comprar trator, conseguir financiamento bancário. Entramos com liminar e conseguimos efeito suspensivo da Serasa, mas não sei até quando vai durar essa liminar.”

Sella, associado da Corol: dívida de R$ 25 mil já virou R$ 34 mil

Para não ser protestado como o amigo, o cooperado Moacir Canônico – produtor de soja, milho, trigo e laranja em Rolândia –parcelou a NCR assinada por ele em quatro vezes.

“Originalmente, era uma nota com dois anos de carência para ser paga em quatro anos. Percebi que estava indo para a Serasa, tirei uma reserva minha e paguei a primeira prestação.”

O ex-presidente da Corol, Eliseu de Paula, garante que o pagamento feito pelo agricultor “fica como crédito em conta na cooperativa”. “Quando houver a remissão, será feito o reembolso o valor”, diz.

Decepção

Cooperado desde 1984, Canônico se diz decepcionado. “Bobeei e assumi uma dívida na certeza de que a Corol ia honrar a palavra. A situação da cooperativa fica cada vez mais difícil, a dívida aumenta, os credores pressionam. Não sei o que vai acontecer.”

R$ 20 milhões é o valor da dívida da Corol com o Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE). Parte dos cooperados assumiu essa dívida, na esperança de que ela seria honrada pela cooperativa, o que não ocorreu. “Como se trata de dinheiro público, temos a obrigação de cobrar. Eu seria processado se não o fizesse”, diz o superintendente do BRDE no Paraná, Paulo Cesar Starke Junior.