Mercado prevê maior queda do crédito em 8 anos

20140318-082444.jpg

Medo de calote faz bancos apertarem regras para financiamentos. Banco Central estima aumento de apenas 13% no crédito em 2014

18/03/2014, 00:20
CRISTINA RIOS
Antônio More/ Gazeta do Povo

Consumidor está optando por segurar novas compras para não se endividar ainda mais.
Apesar da queda na inadimplência, os bancos devem manter a rédea curta na concessão de crédito para consumo neste ano. A previsão do Banco Central é de um crescimento de 13% em 2014, puxado pelo setor imobiliário. Se confirmado será a menor taxa dos últimos oito anos – reflexo da perspectiva de um crescimento baixo da economia.

INFOGRÁFICO: Os financiamentos estão avançando em ritmo menor, confira

Trata-se de um ritmo bem menor de crédito do que se viu nos últimos anos. Desde 2007 o estoque de financiamentos para pessoa física (imobiliário e consumo) cresceu 137%. No ano passado, o aumento foi de 14,6%, para R$ 2,7 trilhões.

O crédito para consumo, por sua vez, deve ter um avanço mais tímido. A desaceleração já foi sentida no ano passado, quando ele cresceu 7,8%. Um dos setores mais afetados com a prudência de bancos e consumidores foi o automotivo. Nos últimos doze meses, o estoque do crédito ficou praticamente estagnado.

Os bancos não devem afrouxar tão cedo as exigências para concessão de crédito porque a inadimplência, que teve recuo nos últimos meses, dá sinais de que parou de cair, segundo Luiz Rabi, economista da Serasa Experian. “Ela não vai recuar mais tanto. E os bancos têm receio de repetir os problemas enfrentados nos últimos dois anos com o aumento do calote”, diz. A inadimplência das pessoas físicas, que atingiu 8% em dezembro de 2012, estava em 6,6% em janeiro, segundo o Banco Central.

Prudência

A alta das taxas de juros, o endividamento das famílias, a inflação persistente e a economia fraca são fatores que limitam o espaço para novas quedas no calote, na opinião do analista.

Além da resistência dos bancos, o consumidor endividado está optando por segurar novas compras. Ainda não há números oficiais, mas os bancos relatam que a procura por crédito pelas pessoas físicas foi bem menor do que o esperado nos dois primeiros meses do ano e em março ainda não houve recuperação.

Segundo a Serasa Ex­pe­rian, a demanda do consumidor brasileiro por crédito recuou 9,6% em fevereiro com relação a janeiro. Na comparação com fevereiro de 2013, no entanto, houve alta de 1%. Neste caso, o avanço é atribuído ao deslocamento do feriado do carnaval, que neste ano aconteceu em março.

O professor de economia Otto Nogami, do Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper), prevê que o consumo não deve reagir antes do fim do primeiro semestre. “A retomada deve vir na segunda metade do ano ou no início de 2015”, prevê. Para ele, o consumo nesse ano deve avançar entre 2,5% e 3%, para um Produto Interno Bruto (PIB) de 1,5%.

JURO MAIS ALTO AFETA OPERAÇÕES E AFASTA CLIENTES

A alta dos juros nos últimos meses encareceu o crédito. As taxas vêm subindo há nove meses no mercado. Das seis linhas pesquisadas pela Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), todas tiveram aumento de taxas. “Os juros devem continuar a subir nos próximos meses para segurar a inflação, o que deve encarecer ainda mais as operações de crédito”, diz Miguel José Ribeiro de Oliveira, diretor executivo de pesquisas econômicas da entidade.
O levantamento detectou altas nas taxas de juros do comércio, no cartão de crédito, no cheque especial, no financiamento de automóveis, e no empréstimo pessoal junto a bancos e financeiras. O cartão de crédito cobra as taxas mais elevadas do mercado (216,59% ao ano), seguido pelo cheque especial (154,06%).
Apesar disso, o brasileiro continua usando com frequência as linhas mais caras por causa do acesso mais fácil, já que têm um limite pré-aprovado. Segundo dados do Banco Central, o saldo de operações no cartão de crédito cresceu 14% nos últimos 12 meses e no cheque especial, 8,6%.
Esse tipo de operação se torna um problema não apenas porque os juros são elevados, mas porque muitas vezes esse crédito é confundido com a renda. “Quando ele passa a fazer parte do orçamento e usado para pagar outras contas, se transforma em um vício silencioso e nocivo para a vida financeira do consumidor” diz Oliveira.